21.10.05

CEBES - O Colégio onde as senhas de almoço se compram aos gritos

No "site" do Colégio Cebes, as senhas de almoço compram-se aos gritos, com murros na mesa e se calhar algumas bofetadas. Veja-se o texto:

"As senhas de refeição estão à venda na secretaria e
deverão ser adquiridas na véspera e no próprio dia
imperativamente, até às 09H30." (in CEBES, negrito meu).

Ora, no site do Priberam - Dicionário online, pode consultar-se o sentido do termo "imperativamente":

"derivação de imperativo
imperativo
do Lat. imperativu
adj., que manda com autoridade;
que impõe;
s. m., ordem, imposição;
Gram., modo verbal que exprime ordem, exortação ou pedido."

Naturalmente o texto deveria conter o termo impreterivelmente:

"derivação de impreterível
impreterível
adj. 2 gén., que se não pode preterir;
que não pode deixar de se fazer;
que se não pode adiar." (op. cit.)

A confusão lexical é aceitável, considerando a proximidade dos fones que compõem os termos "imperativamente" e "impreterivelmente": o mesmo prefixo (im-), o mesmo número de sílabas, o mesmo sufixo (-mente). A diferença reside na realização morfológica das palavras primitivas: "-perativa-" num caso e "-preterivel-" no outro.

Explicada a facilidade com que os termos se podem trocar, resta-me pedir aos alunos do CEBES que não batam muito, nem gritem muito alto aos ouvidos dos funcionários da secretaria, quando forem comprar uma senha de almoço...

14.10.05

LUSOFONIA

Encontrei por acaso este artigo sobre política de língua aplicada ao português que me pareceu muito interessante:
LUSOFONIA

4.7.04

Cuidado com o que diz, Mário Crespo!

Hoje faz cinquenta anos que morreu (na miséria e escorraçado pelo governo português de então) Aristides de Sousa Mendes. A sua actuação durante a II Grande Guerra terá salvo centenas de milhares de pessoas da morte em campos de concentração. O jornalista da Sic Notícias, Mário Crespo, estava a apresentar uma pequena reportagem sobre a actuação de Aristides de Sousa Mendes, quando o ouço dizer "ajudou a população judia". Pois realmente a verdade é que essa afirmação é falsa... Quem ele ajudou efectivamente foi a população judaica.

Mário Crespo: errar é humano, mas há erros e erros. Para quem está numa posição na qual o que diz é ouvido por milhares de pessoas e tido como normativamente correcto, torna-se importante ter atenção a estes deslizes. Não me leve a mal, se calhar fui eu que ouvi bem demais!

Para que não restem dúvidas:

os adjectivos biformes terminados em -eu formam o feminino em -eia: europeu, europeia; hebreu, hebreia. Contudo, judeu e sandeu são excepções: judia e sandia. Mas a questão não reside aqui. O jornalista utilizou uma analogia entre o substantivo gentílico e o adjectivo correspondente. É que na maioria dos casos, ambos são iguais. Ex.:

português - civilização portuguesa;
alemão - civilização alemã;
russo - civilização russa;
italiano - civilização italiana.

Mas:

judeu - civilização judaica;
hebreu - civilização hebraica. (por acaso o povo também pode ser chamado de hebraico).

Conclusão: cuidado com as analogias. Há diferenças e existem por variados motivos. A de judaica reside na etimologia (do latim judaicus, a, um e por sua vez do grego ioudaikos, e, on).